Friday, June 30, 2006

O sonho chamuscado, e a busca do infinito.

Era uma manhã fria e cinzenta, num contraste de cores; um negro pálido firmava-se, enquanto inutilmente o dourado se esmerava em resplandecer. Se o céu não estivesse tão raso e até quase turvo, podia dizer que estava um lindo dia. O ar parecia uma espessa massa de fumo divagando pelo espaço. Um certo cheiro de desgraça pairava no ar, um silêncio dorido se focinhava pelo espaço, os pássaros não cantavam, como se silenciassem o tempo. Uma intensa poeira marcava presença dentro do quarto escuro e sombrio da insólita casa. Quando Alva despertou encontrou Pedro, com as roupas todas rasgadas, amarfanhado, e com marcas de sangue por todo o corpo, denunciando uma luta muito renhida havida. Ele gemia dorido. Já se podia prever de antemão que um dos seus trabalhos não havia corrido como se esperava. Pedro tentava abrir os olhos, esforçava-os, tentava mover os braços, mas não conseguia. Havia sido uma luta muito renhida, como podiam claramente provar os resquícios. Alva não entendia aquilo tudo, no entanto, sabia que estava a perder tudo que lhe era mais precioso; o seu amado.
Alva agachou-se sobre seu próprio corpo, depositando os seus joelhos no chão frio, segurou seu corpo, como se quisesse fazer toda a dor dele caber em si. Seus olhos divagavam entristecidos por aquele cenário, pois enxergava que nem o amor que os unia era suficientemente forte para fazê-lo desistir daquela ambição desmesurada. Vendo-o ali, sofrendo tanto, ela sentia-se igualmente ferida. Num instante dos seus olhos uma lágrima dorida quedou, e tombou sobre a face de Pedro, este não reagiu, estava demasiadamente fraco. Seu corpo minguava, Alva deu-lhe um beijo, mas não desses beijos comuns. Deu-lhe um beijo com a boca da alma, para lhe sugar a dor, pois é na alma onde reside a essência de tudo. O corpo é somente um recipiente. Quando sugou o último fiapo do seu amado, este sossegou, como se estivesse sendo embalado nos lábios do mar. E assim era, naquele instante, Alva fazia uso da arma mais poderosa que as mulheres detêm; o amor. Uma mulher que ama, consegue abrir todas as portas, e até mesmo a da vida. É por isso que somente as mulheres foram concedidas a dadiva de conceber.
Alva sabia que a vida toda foi gerada no ventre de uma mulher, chamada natureza. A deusa das florestas, dos rios, das aves, da vida. Essa a quem se atribui o esplendor de tudo de belo que o homem enxerga.
Alva fechou os olhos, num pestanejar lento, e com as mãos em concha ela foi colhendo as lágrimas do seu rosto, que reluziam como labaredas de luz. E cada lágrima que colhia do seu rosto, ela depositava nos lábios de Pedro, enquanto que quase num murmúrio, ela cantava canções de infância. Quando sua mãe, Rosalinda, esperava seu pai Revoltácio regressar de suas andanças pelos caminhos sem volta. Ela ali ao pé do seu amado, sentia-se como sua mãe, que perdera o seu homem para o infinito. Revoltácio, era um homem pouco resignado a si mesmo. Dizia por vezes, que burro esperto dorme em pé, para não perder a viajem. A sua maior paixão era algo que ele pouco entendia, mas que no entanto, sabia que residia além do horizonte. Segredado na lonjura que não se revelava aos seus olhos. Um dia, encontraram-no como sempre fazia, sentado na varanda da sua casa, com os olhos apagados de brilho, como se os tivesse emprestado ao dia ensolarado que se fazia. Rosalinda sua esposa, ainda tentou soprar-lhe algumas palavras, esperando alguma resposta sua. O homem estava completamente ausente de vida. Os olhos estavam simplesmente depositados sobre o horizonte. Assim morreu Revoltácio. Morreu na lonjura do infinito, amando o que ainda estava por vir.

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